Por que eu decidi fazer um doutorado fora do Brasil?


Vista de Brisbane, em Queensland, Austrália. Logo no centro, a QUT, universidade onde hoje estou fazendo minha pesquisa.

Para você que ira começar a ler esta historia, não espere flores e alegria por todo o percurso.

Meus flertes com a Austrália são de longa data. Desde 2012, quando conheci o Ciência sem Fronteiras, sonhava com a possibilidade de vir fazer uma parte da minha graduação. Duas vezes entre 2013 e 2015 eu tentei e, nas duas vezes, eu fui bem sucedido. Por medo e insegurança, optei por não vir na primeira vez, nem cheguei a escolher a universidade. Na segunda vez, cheguei a ir mais longe. Escrevi cartas de motivação, pedi cartas de recomendações de professores nada menos que maravilhosos que tive durante minha graduação em Biologia no Instituto Federal do Rio de Janeiro. Infelizmente, mais uma vez, optei por não vir.
Dessa vez, a decisão foi um pouco mais madura. O Instituto Federal sofria constantes cortes de verbas no período, assim como faltava reajuste salarial dos professores e as vezes ate água na instituição. A situação de incerteza entre paralisações e greves constantes (encarei pelo menos 4 no decorrer de toda a minha graduação) me fez ficar. Afinal, para fazer o curso de inglês de alguns meses e os dois semestres da graduação, o que em condições normais levaria um ano, para mim custaria pelo menos dois. As greves fizeram com que nosso calendário ficasse louco e nossos períodos letivos começavam e terminavam em momentos diferentes de todo o resto.
Alem do mais, nesse período a CAPES teve alguns problemas com algumas das entidades responsáveis pelos repasses de verbas para os alunos, gerando atrasos para o recebimento. Essas mesmas entidades sugeriram aos alunos “jeitinho brasileiro” para lidar com os atrasos. Desnecessário dizer que a insegurança de ir para fora do pais, longe dos amigos e famílias e sem respaldo financeiro (minha família não tinha condições para me bancar) era grande.
Não desisti do meu sonho por ai. Com muito suor conquistei meu título de Bacharel em Ciências Biológicas em 2016, e, logo no começo de 2016, também fui aprovado para fazer um mestrado na mesma instituição, agraciado com uma bolsa da FAPERJ, uma das bolsas de maior prestígio no Brasil. O curso era excelente, nada menos que o esperado pelo Instituto Federal em colaboração com várias universidades, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) onde eu fiz toda a minha pesquisa. As disciplinas estavam em dia, a pesquisa estava andando, a convivência com orientadores e colegas de trabalho era ótima, não havia motivos para reclamação, afinal, eu estava em um laboratório privilegiado e com colaboradores ainda mais privilegiados.
No entanto, do meio para o fim do ano de 2016, algumas coisas aconteceram. Eu comecei a trabalhar com fotografia, fazendo algumas formaturas dentro da faculdade em contato direto com os alunos. Era um retorno financeiro pequeno, porem, somava com a bolsa, não afetava a minha produtividade e eu fazia algo que gostava e tinha retorno positivo de várias pessoas. Nesse mesmo período, a bolsa da FAPERJ começou a sofrer alguns atrasos. Os atrasos não me afetavam profundamente porque, na época, eu morava com a minha avó não tinha gastos dentro de casa, então minha bolsa era para alimentação, deslocamento e o resto eu guardava para eventuais necessidades. Mas eu conhecia muita gente que tinha saído do Nordeste e se mudado para o Rio para fazer um doutorado e comprometer quatro anos da sua vida na pesquisa, sofrendo bastante para pagar o aluguel, as contas de casa, comprar comida e fazer a manutenção básica da vida. Nesse período, chegamos a ficar 3 meses sem receber bolsa e não era a primeira vez que isso tinha acontecido.
Nesse mesmo período, a FAPERJ também recebeu um corte no repasse, o que comprometeu não só as bolsas dos alunos (que eu devo admitir que a FAPERJ fazia o possível para manter em dia e tinha linhas diretas de comunicação com os alunos e representantes estudantis para levar e trazer informação), mas, principalmente, os repasses para os laboratórios. Novamente, eu estudava em um laboratório privilegiado, onde a chefe do laboratório tinha fontes de verba de diferentes agencias de fomento alem de diferentes colaborações entre outros laboratórios e fazia um bom gerenciamento. Os alunos ali conseguiam começar e terminar suas pesquisas. Em contrapartida, vi algumas linhas de pesquisa tendo suas atividades interrompidas ou seriamente afetadas por causa de uma serie de cortes. Meu próprio orientador na época precisou de colaboração com a chefe do meu laboratório pois sua verba da FAPERJ para pesquisa estava retida ha tempos por falta de repasse.
Ainda nesse período, a CAPES anunciou bolsas de doutorado pleno no exterior e eu conversei com meu orientador sobre a possibilidade de tentar encerrar todas as disciplinas, pesquisa e escrever minha tese no período de um ano (doses de motivação e inocência que hoje só denotam minha incapacidade de observar o tempo que cada tarefa leva para ser feita) já que eu poderia defender a minha dissertação assim que eu a tivesse pronta. Nesse período eu comecei a procurar por pesquisadores que estavam procurando por alunos para compor o time de pesquisa dentro do laboratório e, assim, em julho de 2016 eu tive meu primeiro contato com meu atual orientador. Conversei com ele sobre minhas motivações e aspirações, meu conhecimento prévio e como eu me encaixava no grupo de pesquisa. Ele gostou do meu perfil e achou legal eu ter feito o contato, me aceitou como possível aluno. Mas nada na vida e simples assim.
Por razoes obvias, eu não tive condições de finalizar o mestrado em menos de um ano, nem consegui escrever um projeto inteiro saído do zero com o conhecimento que eu tinha da linha de pesquisa e em uma semana. Falei sobre isso com meu supervisor e pedi desculpas por ter tomado o tempo dele, mas ele falou para eu não desistir e disse que tinham algumas bolsas que eu poderia tentar dentro da universidade ou pelo governo australiano, as quais abririam no ano seguinte.
Em 2018 eu terminei meu mestrado, e, com isso, a bolsa do mestrado também acabou. Foi um ano em que a fotografia, minha fonte de renda extra, passou a ser a fonte de renda principal. Varias pessoas, de amigos a professores, colaboradores e orientadores, perguntaram se eu tinha intenção de fazer um doutorado. Nessa época, eu conseguia me sustentar com a fotografia e as perspectivas eram de o mercado só crescer. Os quatro anos de compromisso de um doutorado em tempo integral já não pareciam tao animadores, principalmente quando consideradas as possibilidades de retorno financeiro e empregabilidade a longo prazo.
Mais de 30% dos doutores formados não conseguem um emprego no Brasil enquanto fora do pais, o desemprego para pessoas com esse grau de formação chega a 2%. O escape para muitos dos alunos que terminam o doutorado no Brasil e instantaneamente seguir para um pós doutorado, uma nova bolsa de estudos que paga quase o dobro da bolsa de doutorado, chegando a R$4,1 mil. Entretanto, por se tratar de uma bolsa, não garante direitos trabalhistas e nem garante continuidade na carreira, tendo uma curta duração, em geral um ano apenas. Ademais o caminho natural dos alunos que fizeram mestrado e doutorado, depois de fazer um pós-doutorado (ou mais) e o caminho acadêmico. Mas, em muitos dos casos, por terem dedicado pelo menos seis anos das suas vidas na pesquisa e pelo menos dez anos estudando só a sua área, pecam muito na didática e encontram problemas em se empregar. Alem disso, encontram salários baixos, defasados, e que não fazem jus ao tempo e esforço aplicado em suas carreiras.
Com todos esses motivos para desanimar, ainda assim, eu quis sim fazer um doutorado. Mas queria que o doutorado fosse uma possibilidade de eu ter experiencia em outro pais, ver como funciona a pesquisa fora do Brasil e praticar meu inglês, alem de conhecer novas culturas. “Perdi” meu ano de 2018 inteiro procurando bolsas e conversando com orientadores em potencial, mas ou as bolsas não eram o suficiente para cobrir o custo de vida (como no Reino Unido) ou a pesquisa em si não tinha nada que fosse realmente empolgante (para mim, ao menos). Sendo assim, optei por apostar todas as fichas do meu 2018 na bolsa de doutorado que apliquei. Felizmente, no fim do ano de 2018 eu recebi aprovação da universidade e, depois de solicitações de visto, emissão de muitos documentos novos, tradução de muitos documentos e muito desespero, em 2019 eu me mudei para a Austrália e comecei a fazer a pesquisa aqui.
Acredito que eu me enquadre como mais um dos muitos pesquisadores que constituem uma “fuga de cérebros” do Brasil, que buscam melhores condições de trabalho no exterior, fuga essa que se intensificou com a crise desde 2015. A principio, não posso dizer que me arrependo.

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